nas linhas do invisível

Quando o invisível é o campo, as possibilidades são infinitas. Investigar as fotografias para quem não as enxerga com os olhos, é assumir a existência de brechas invisíveis onde a criação pode existir. Uma tela em branco. Inicialmente o recorte seria: a relação de cegos e fotografia. Porém, em campo, foi ampliada para a relação de deficientes visuais e fotografia. Ainda nesse momento, decidira que caso essa relação existisse e houvesse interesse dos meus interlocutores, bordaria fotografias dos acervos deles (acessibilizando a imagem) como uma restituição.

 Na escola onde pesquisei, acionei duas categorias que se apresentavam: a distância e o tempo. A primeira ficou evidente nas diferentes aproximações de cada visualidade. A minha visualidade (assim como a das professoras), chamada de vidente, era a mais distante. Em seguida vinha a baixa visão que buscava a proximidade em diferentes ângulos há cerca de 3cm do papel. Por fim, a cegueira se diferenciava dos outros dois, pois quebrava o distanciamento.  O tempo se mostrava similar à distância, mudando gradualmente conforme a visualidade. Como a distância, haviam conflitos entre os alunos, fosse nos quinze minutos para ir ao banheiro ou na pressa em falar o qual era o animal que uma menina cega desvendava com as mãos. O tempo da cegueira dialogava com o tempo tátil, feito pedaço por pedaço (Von der WEID, 2015), gradativamente.

Aqui o bordado foi além de uma restituição para se tornar um método de investigação, tendo como fatores fundamentais a tatilidade e temporalidade. Por conta desses atributos, desde a confecção até a sua capacidade de atingir os dedos, é coerente aproximá-lo da deficiência visual. Pensando com Ingold, cada linha colocada na imagem, representava a história contada pela fotografia de arquivo. Junto a isso, o paradoxo de uma fotografia para quem não enxerga se tornou possível. Assim, as fotografias bordadas fazem um encontro perceptivo (visual e tátil) e temporal (distante e próximo).

As tentativas de acessibilizar as fotografias foram feitas ao longo da pesquisa de campo, porém, por conta da pandemia de COVID-19, esses bordados não chegaram as mãos deles. Além do foco nas pessoas cegas que tocariam esses bordados, as cores contrastantes, sempre se diferenciando do tecido, foi pensada para pessoas baixa visão. Aqui exponho esse processo interrompido, um ensaio feito com fotografias do meu acervo para eles.

Autora: Potira Faria