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O fazer antropoético se constitui no interstício entre o universo de pesquisa e a produção de conhecimento, por meio de uma elaboração  e “partilha do sensível” (RANCIÈRE, 2005) – aqui denominadas poéticas – que buscam dar vazão às experiências dialógicas estabelecidas com nosso(a)s interlocutore(a)s. Antes de se estabelecer enquanto uma antropologia poética, o termo antropoética (BRANDÃO, 2005; GHEIRART, 2015) propõe a articulação de distintas dimensões da vida: política, poética e ética, a partir do fazer antropológico em perspectiva ecológica (BATESON, 2000 [1972]; INGOLD, 2000, 2012; VELHO, 2001). Seguindo as indicações de Brandão (2005), afirmamos que antropoética não se refere nem a uma antropologia da poesia, nem à poesia antropológica, portanto.

Promovemos discussões sobre as múltiplas potencialidades narrativas acionadas nos atos de observar, registrar, descrever e transmitir. De fato, tais narrativas são aqui compreendidas como constitutivas de um processo de conhecimento que é permeado por sentidos e sensibilidades (LE BRETON, 2016; 2019; FELD, 2009) e que se dá em meio a campos de forças, relações de poder e conflitos, que dizem respeito tanto à própria constituição da subárea da antropologia audiovisual e da imagem, quanto aos inumeráveis temas e campos de pesquisa nos quais podemos atuar.

Grafar é uma forma de produzir rastros em estado de devir, evidenciando fluxos e movimentos por meio de gestos, perpassados por afecções que são da ordem da relação e da aproximação, ou seja, é uma potencialidade no processo de tornar tangíveis imagens em acontecimento, fenômenos. Nessa perspectiva, as imagens – tanto visuais quanto sonoras – possuem agência sobre a imaginação e estabelecem conexões entre as múltiplas formas de perceber, compreender e experimentar mundos. Trata-se de uma antropologia que assume a subjetividade e os riscos atinentes à experiência (TURNER, 2008) destacando a importância da “educação da atenção” (INGOLD, 2010b, 2015), aliada aos atos de observar e descrever.

Acreditamos que a produção de conhecimento ganha em profundidade criativa e analítica quando alia a palavra a outras grafias, permitindo que o ato de criar mundos não se encerre com a narrativa antropológica, mas garanta a reserva de um espaço de devir. Nessa direção, grafar torna-se um exercício ético-poético de conhecimento com o Outro da pesquisa, uma possibilidade de tornar tangíveis fenômenos, experiências e emoções que nos “afetam” (FAVRET-SAADA, 2005) mutuamente, produzindo marcas duráveis, dotadas de significação. Além disso, estas grafias insurgentes representam uma importante forma de transgredir os padrões normativos, e podem ser pensadas como formas de descolonizar o imaginário ao colocar no centro das operações intelectuais, narrativas e interpretativas, formas de narrar não-hegemônicas, buscando um engajamento com o mundo (INGOLD, 2010; 2012; 2015) e a realização de uma antropologia compartilhada com inspiração roucheana. 

 

É a partir desta perspectiva que buscamos refletir sobre os esforços descritivos-analíticos que integram o fazer antropológico, a partir de múltiplas técnicas, linguagens e mediadores, tais como, a fotografia, os objetos, a colagem, o desenho, o som, a música, o audiovisual, a manipulação digital, o bordado, a instalação, a performance, o grafite/pichação, os motivos gráficos, entre outras formas de expressão e comunicação. Trata-se, portanto, de colocar em evidência a incontornável reflexão sobre a “performance” (DAWSEY, 2005) do pesquisador, seja durante suas interações em campo, tratamento de dados ou nas diversas formas de restituição (devolutivas) social da pesquisa. Nesse sentido, um fazer AntroPoÉtico atento à dimensão sensível da vida, sem negligenciar silêncios, emoções, formulações inacabadas, esquecimentos e elementos indizíveis, seria não apenas desejado, mas necessário.

Além do mais, buscamos refletir e problematizar acerca das relações de poder, sensibilidades e a ética relacionadas às práticas narrativas e à constituição da memória individual e coletiva. Nesse sentido a narratividade dos objetos enquanto “reminders” (RICOEUR, 2010) e elementos “biográficos” (Cf. HALBWACHS, 2006; BOSI, 2009), torna-se uma possibilidade de trabalho, uma vez que as coisas, assim como as imagens, são disparadores de memórias e potentes narradores. Objetos, “coisas” e memórias surgem, também, como narrativas nos quais esperamos encontrar as expressões e os símbolos que nos permitem compreender os contextos socioculturais das comunidades estudadas. 

Essas análises envolvem não apenas memórias individuais (HALBWACHS, 2006), mas memórias coletivas nas quais podemos reconstruir passados em que interrupções, vazios, traumas deixam de ser momentos de reflexão pessoal para se tornarem espaços de transmissão que podem ser comunicados a outras pessoas e em que podemos apreciar a materialização de sentimentos em representações performativas que dão sentido ao passado e que se tornam veículos de memória (JELIN, 2002, p.28-37).

Referências bibliográficas:

BATESON, Gregory. Steps to an Ecology of Mind. Chicago: The University of Chicago Press, 2000 [1972].

 

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Escrito com o olho –anotações de um itinerário sobre imagens e fotos entre palavras e idéias. In:ECKERT, Cornélia; NOVAES, Caiuby (Org.). O imaginário e o poético nas ciências sociais. Bauru, SP: EDUSC, 2005.

 

DAWSEY, John. O teatro dos “bóias-frias”: repensando a antropologia da performance. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 24, p. 15-34, jul./dez. 2005.

 

FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Tradução: Paula Siqueira. Cadernos de campo. nº 13, 155-161 p. 2005. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/viewFile/50263/54376>. Acesso em: 12 de jun. de 2017.

FELD, Steven. Suono e sentimento. Milano: il Saggiatore, 2000.

HALBWACHS. Maurice. A memória coletiva. Traduzido por: Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

GHEIRART, Oziel. O tratado antropoético. 2015. 183f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP), São Paulo, 2015.

 

GIRALDO LOPERA, Marta. y TORO TAMAYO, Luis Carlos. Tramitar el pasado. Archivo de derechos humanos y museología viva. Medellín: Fondo Editorial Universidad de Antioquia, 2018.

INGOLD, Tim. The Perception of the Environment: essays on livelihood, dwelling and skill. London: Routledge, 2000.

 

INGOLD, Tim. Da transmissão de representações à educação da atenção. In. Educação. Porto Alegre, v.33, n.1, 2010b Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/6777. Acesso em jun. de 2021.

 

INGOLD, TIM. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. In: Horizontes Antropológicos 18(37), 2012.

 

INGOLD, Tim. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015.

JELIN, Elisabeth. "¿De qué hablamos cuando hablamos de memorias?”, en: Los trabajos de la memoria. Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores, 2002.

 

LE BRETON, David. Antropologia dos sentidos. Petrópolis: Vozes, 2016.

 

LE BRETON, David.  Antropologia das emoções. Petrópolis: Vozes, 2019.

 

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: Estética e política. São Paulo: EXO experimental org. Ed.34, 2005.152p.

 

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora Unicamp, 2010.

TURNER, Victor. Dramas, campos e metáforas: ação simbólica na sociedade humana. Niterói: editora da Universidade Federal Fluminense, 2008.

 

VALÉRY, Paul. Primeira aula do curso de poética. In: Variedades. Tradução: Maiza Martins de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 1937. 

 

VELHO, Otávio. De Bateson a Ingold: passos na constituição de um paradigma ecológico. In: Mana. Rio de Janeiro, 7(2), outubro de 2001, p. 133-140.